Peru e Machu Picchu

A viagem que eu paguei vendendo cones trufados

Antes de existir a Vi Viagens, existia uma menina tentando atravessar a primeira fronteira.

Peru, 2018Primeira viagem internacionalViabilizar viagens
Vivian em Machu Picchu na sua primeira viagem internacional

Por sorte, em português existe a palavra saudade. Eu nem tinha voltado direito e já estava com saudade do Peru. Saudade das fotos. Saudade das ruas de Cusco. Saudade da comida. Saudade daquela sensação maluca de olhar ao redor e pensar:

eu consegui. eu estou em outro país.

Hoje, olhando para trás, eu entendo que minha primeira viagem internacional não foi só uma viagem. Foi uma espécie de portal.

Antes dela, viajar o mundo ainda parecia uma coisa meio distante. Uma coisa que eu queria muito, pesquisava muito, sonhava muito, mas que parecia pertencer a outra vida. A vida de quem tinha cartão de crédito, dinheiro guardado, família que ajudava, milhas, experiência, segurança.

Eu não tinha nada disso. Mas eu tinha uma coisa muito forte: vontade. E vontade, quando encontra um plano, começa a virar caminho.

Eu fui para o Peru com dois mil reais

Dois mil reais. Era isso. Foi com esse dinheiro que eu fiz minha primeira viagem internacional.

Eu juntei vendendo cones trufados na faculdade, fazendo o que dava, como dava, no meio da rotina da Unicamp. A passagem foi comprada no cartão de crédito da minha sogra, parcelada em 12 vezes, porque eu nem cartão tinha.

Não tinha glamour. Não tinha agência montando roteiro premium. Não tinha mala perfeita. Não tinha “vida de viajante”. Tinha uma menina que queria muito conhecer Machu Picchu e uma amiga, a Giovanna, que dividiu esse sonho comigo.

A gente ficou em hostel de menos de 5 dólares a noite. Dividiu quarto, dividiu medo, dividiu descoberta, dividiu o tipo de alegria que só existe quando duas pessoas decidem fazer acontecer mesmo sem ter todas as condições ideais.

Ela não foi fácil. Ela foi possível.

O primeiro voo internacional

O voo foi com a Avianca, numa época em que a Avianca ainda não era low cost.

Eu lembro da sensação de entrar naquele avião como se estivesse entrando numa nova versão da minha vida. E lembro também de uma coisa muito específica: a cobertinha do avião. Sim. Eu levei a cobertinha. Não podia levar. Mas sempre existem as malucas que levam. Eu fui uma dessas.

Tenho essa cobertinha até hoje. E pode parecer um detalhe bobo, mas para mim ela virou quase um objeto de memória. Uma prova física daquela primeira travessia.

A primeira vez que eu saí do Brasil. A primeira vez que eu ouvi outro idioma ao meu redor e precisei lidar com outro dinheiro, outra comida, outro trânsito, outro ritmo. A primeira vez que o mundo deixou de ser pesquisa de internet e virou chão debaixo do meu pé.

Vivian no Peru, com paisagens e celebrações em Cusco
Peru, 2018. Eu ainda estava aprendendo a atravessar o mundo.

Cusco me recebeu com buzina, altitude e encanto

Nosso roteiro começou em Cusco. E uma das primeiras coisas que eu lembro é do trânsito.

No Peru, pelo menos naquela minha primeira impressão, parecia que a buzina era uma extensão da seta. Todo mundo buzinava. Tudo parecia caótico e vivo ao mesmo tempo.

Cusco foi uma surpresa enorme. Eu não sei explicar exatamente o que eu esperava, mas sei que encontrei uma cidade muito mais bonita, intensa e emocionante do que eu imaginava. Tinha história em tudo. Pedra, rua, comida, gente, mercado, altitude, céu.

E tinha aquela sensação de estar vivendo algo maior do que eu. A gente caminhava pelas ruas e eu só pensava: como é possível eu ter demorado tanto para chegar aqui?

A caminho de Águas Calientes

A parte mais insana da viagem foi ir para Águas Calientes. Não fomos naquele trem luxuoso que aparece nos vídeos bonitos do Peru. A gente fez do jeito que cabia no nosso orçamento.

Pegamos um ônibus local até a região da hidrelétrica e depois seguimos a pé pela trilha até Águas Calientes. Foram muitos quilômetros caminhando. Eu lembro dos precipícios, da estrada, do ônibus, da minha amiga passando levemente mal, da gente chegando destruída e feliz.

A cidade de Águas Calientes era fofa demais. Daquelas que parecem existir em suspensão, cercada por montanha, umidade, verde e expectativa.

No dia seguinte, a gente visitaria Machu Picchu. E até hoje eu acho que não existia destino melhor para ser meu primeiro país fora do Brasil.

Vivian em Águas Calientes e na trilha a caminho de Machu Picchu
A chegada em Águas Calientes teve cansaço, verde, trilho e aquela expectativa antes do grande dia.

Machu Picchu e a sensação de realizar um sonho

Eu tinha sonhado tanto com aquele lugar que, quando finalmente cheguei, parecia que eu não conseguia acreditar.

Tem uma coisa muito estranha sobre realizar sonhos. A gente passa tanto tempo desejando, planejando, imaginando, que quando acontece de verdade o cérebro demora a acompanhar.

Eu estava ali. Em Machu Picchu.

Depois de vender doce. Depois de parcelar passagem. Depois de dormir em hostel barato. Depois de pegar ônibus local. Depois de caminhar até a cidade-base. Depois de fazer caber no bolso uma viagem que, por muito tempo, parecia não caber na minha vida.

E talvez tenha sido ali que uma parte de mim entendeu: eu posso construir caminhos. Não todos de uma vez. Não sem medo. Não sem perrengue.

Mas posso.

Vivian e Giovanna em mirante de Machu Picchu
Machu Picchu foi o lugar onde eu entendi que talvez eu pudesse construir caminhos.

A comida peruana virou memória afetiva

Mesmo depois de tantos anos, a comida peruana continua sendo uma das minhas favoritas no mundo. E é louco como algumas coisas não saem da memória.

Eu ainda lembro do cheiro e da textura da primeira sopa com milho e ovo que comi. Lembro da alegria de encontrar ceviche por 8 soles, que na época parecia quase 8 reais. Lembro de descobrir o “menu” peruano, com salada, prato principal, bebida e sobremesa, tudo por um preço que fazia sentido para duas universitárias viajando com o dinheiro contado.

Na época, eu não sabia que isso era comum em muitos lugares. Para mim, tudo era novidade. Tudo era descoberta. Tudo era “meu Deus, olha isso”.

Em Lima, a gente queria viver uma experiência gastronômica especial. Nosso sonho era um restaurante Michelin, mas a gente fez o que dava com o orçamento que tinha.

Fomos ao Pescados Capitales, em Miraflores, onde comi um ceviche incrível e descobri uma pimenta em formato de tomate do jeito mais Vivian possível: achando que era tomate. Não era.

Também fomos ao Nanka, e até hoje eu lembro do prato da Gi melhor do que do meu. Ela pediu um atum que estava perfeito. Eu comi um peixe empanado com quinoa, e foi a primeira vez que comi quinoa na vida.

Depois tentei reproduzir aquele prato várias vezes. Nunca ficou igual. Talvez porque não fosse só o prato. Era o momento. Era a primeira viagem. Era a sensação de estar sentada num restaurante em Lima, depois de anos achando que esse tipo de experiência não era para mim.

Pratos de comida peruana provados durante a viagem
A comida peruana virou uma memória que até hoje volta pelo cheiro, pelo milho, pela sopa e pelo ceviche.

Copa do Mundo, bar cheio de brasileiros e o hexa que não veio

Era Copa do Mundo. A gente assistiu Brasil e Sérvia em um bar cheio de brasileiros. O Brasil ganhou de 2x0, e por algumas horas parecia que tudo era festa, viagem, comida, futebol e promessa.

O hexa não veio naquele ano. Mas algumas coisas vieram.

Veio a certeza de que eu queria continuar viajando. Veio a vontade de conhecer outros lugares. Veio o entendimento de que planejar uma viagem é quase uma forma de se reinventar antes mesmo de embarcar.

Naquela época eu viajava de um jeito. Hoje viajo de outro

Nessa viagem, eu levei dólar em espécie e troquei por soles nas casas de câmbio do Peru. Antes disso, comprei o dinheiro na Confidence Câmbio, do jeito que parecia fazer sentido na época.

Hoje eu viajo diferente. Uso cartão global, comparo câmbio, levo menos dinheiro físico e tento simplificar tudo o que antes me dava ansiedade. Wise, Nomad e Revolut fazem parte da minha vida de viagem hoje porque me dão mais controle, mais segurança e menos aquela sensação de estar perdida com dinheiro no bolso sem saber se estou fazendo a melhor escolha.

Se eu estivesse indo para o Peru hoje, provavelmente ainda levaria um pouco de dinheiro vivo. Mas não viajaria mais dependendo só dele.

E é bonito perceber isso. A Vivian de 2018 fez o melhor que podia com o que sabia. A Vivian de hoje carrega outras ferramentas.

Vivian em restaurante no Peru e prato de peixe com quinoa
Às vezes a viagem também fica guardada no prato que a gente tenta repetir em casa e nunca fica igual.

Seguro viagem também fez parte da história

Eu também viajei com seguro. Porque, para mim, viagem sem seguro viagem não é viagem.

Na época, eu não tinha cupom próprio, nem link de afiliada, nem uma marca chamada Vi Viagens. Provavelmente usei algum link de alguém que, assim como eu faço hoje, compartilhou uma dica em algum blog ou vídeo que me ajudou a viajar melhor.

E tem algo muito bonito nisso. Anos depois, eu tenho meu próprio cupom. Não porque eu virei “influencer de desconto”. Mas porque eu vivi esse caminho inteiro como viajante antes de estar do outro lado.

Eu sei o que é procurar um cupom. Eu sei o que é fazer conta. Eu sei o que é abrir 30 abas tentando entender se aquilo cabe no orçamento.

E hoje, quando eu compartilho uma ferramenta, um seguro, um chip, uma conta global ou um link útil, eu penso justamente nessa Vivian de 2018. A menina que queria atravessar o mundo, mas precisava encontrar formas reais de pagar por isso.

O que o Peru me ensinou

O Peru me ensinou que uma viagem pode começar pequena e ainda assim mudar tudo. Me ensinou que orçamento apertado não impede encantamento. Me ensinou que hostel barato também guarda histórias enormes. Me ensinou que comida é uma forma de memória.

Me ensinou que realizar um sonho não é sempre cinematográfico. Às vezes é parcelado em 12 vezes, pago com doce vendido na faculdade e vivido com uma mochila nas costas.

E talvez essa tenha sido a maior lição: antes de eu ensinar outras pessoas a viabilizarem viagens, eu precisei aprender a viabilizar as minhas.

Foi ali que tudo começou. Antes da Vi Viagens. Antes dos guias. Antes das milhas. Antes das consultorias. Antes de Portugal. Antes de eu entender que queria o mundo.

Teve o Peru. E eu ainda sinto saudade.

Biblioteca da Vi

Itens da Biblioteca da Vi citados neste Diário

Antes de eu ajudar outras pessoas a viabilizarem viagens, eu precisei aprender a viabilizar as minhas.

Se essa história te deu vontade de tirar uma viagem do campo do “um dia”, talvez a gente possa começar pelo próximo passo possível.

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